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Carta de Amor que não passou da intenção

Maria Helena Ventura

14/07/2020 21:59

Se eu pudesse dizer o que não quero
o que não sei e pulsa como estrela…
Se aprendesse a lapidar os sons
desarrumados na boca
irredutíveis
fiar o tom indizível deste amor insone…
Se eu pudesse afagar a tua voz
cravada na cabeça como flecha em brasa
excessiva dor a levitar no escuro…
Se num gesto redentor de ninfa
aspergisse os poros de palavras límpidas
e escorresse mel…
Se soubesse antecipar
a frescura do sorriso
quando levanta asas pela manhã…
Se ousasse pintar em aguarela azul
a nesga de mar a entrar pela janela…
Se prolongasse a magia
dos fundos vegetais da noite
em candeeiros de lânguido design…
Ah se escrevesse o abrigo dos teus dedos
na caneta redonda ou vice-versa
a cinzelarem frases oblíquas
como o canteiro a pedra…
Se definisse os teus braços de hera
a guardarem-me no muro do teu corpo
e a curvatura dos momentos calmos
na brancura giratória dos moinhos…
Se dourasse o suculento silêncio
nas areias da ampulheta vagarosa…
Se aliviasse a dor deste envelope
na respiração de um cisne em agonia
até sangrarem as letras…
Se remetesse o chamamento
teimoso que amarga o tom da vida
com a etiqueta de prioritário…

Havia de pedir o fim de inumeráveis horas
em dias despovoados de margens
e num amplo voo de pássaro vermelho
rasando a fogo os ninhos do teu corpo
ousaria um mergulho na cintilação
dos olhos mais profundos do planeta
até ao abraço demorado e lânguido
como onda a espreguiçar uma última vez.
E ainda levaria os teus dedos
a fecharem-me os olhos como asas
enquanto num murmúrio cúmplice
de pomba em arrulho de promessas
a minha voz respirasse na tua:
Até ao fim do mundo…

(In INTERTEXTO SUBMERSO)