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Caminhos silenciosos

Maria Helena Ventura

03/07/2021 01:03

Vou por este caminho
de silêncio azul
onde as vozes se evadem
para distância calculada.
Não entenderás
as palavras tímidas
de mínima espessura
que gravam todos os dias
indelével mensagem
no mármore dos ossos.
Para amanhecer o nome delas
das palavras
terias que habitá-las
por dentro
devagar
como se invadisses a fogo
os ninhos do meu corpo.
Só então cada gesto
me encontraria
no momento certo
e o afecto ganharia
o seu registo audível.
Vou pelo caminho
do silêncio
porque só ele sabe
a imortalidade do sangue
num coração de pautas
rasgadas.
Se mudo
se me desfaço
se rasgo os pulsos
em planuras de sal
e mil pedaços deixo por aí?
Claro
tanto como as papoilas
entregam as pétalas ao vento
para voltarem um dia
ainda mais rubras.
Pela madrugada
saudarei as raízes
que só eu sinto ainda
e sempre vivas
sob a terra
porque contigo serei
em todas as fronteiras
de páginas fechadas.
Estou como se não estivesse
assim como não estando
estarás sempre...
eu sei ler as palavras
que não dizes.
Só te peço que não
me abraces com os olhos
nem vertas sobre o tempo
que foi nosso
códigos de arrependimento.
Se o fizeres
como poderemos partir
ou estar
em liberdade?
Amaremos em fogo brando
levantando asas
nas linhas inconciliáveis
de um mapa conhecido.

Pelas estradas do silêncio
é nosso o mundo todo.

(In Quando o silêncio falar)