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As mãos de Van Gogh

Adília César

25/08/2020 01:46

Das mãos de Van Gogh nascem outras mãos.
Nenhuma mão é simples
nenhuma palavra se ouve.

Palavras que sopram nos buracos da sua cabeça.

Nas muitas vozes que não são dele
pinceladas e gestos imprimem ruídos
cristalizam e não ressuscitam as palavras
que se afogaram nas searas.

No quarto de Van Gogh já não moram palavras
mas as cores dançam com o desespero dos pássaros
espreitam pela janela debruçada no parapeito veloz
invejam o homem esculpido no vidro da sua própria solidão
que agora descansa nos gemidos da cadeira.

Os pássaros querem dormir e sonhar
cobiçam a colcha ofegante toda feita de sangue.
São anseios de uma paleta compulsiva em forma de ninho.

No dia em que Van Gogh calou a mão do pintor
todas as cores morreram no silêncio dos homens
e as outras mãos que tinham nascido da loucura
imprimiram vazios incolores
nas telas vaidosas que se diziam vida.

A genialidade de Van Gogh à espera que o sangue seque.
A genialidade de Van Gogh à espera que as vozes se calem.
A genialidade de Van Gogh à espera que a dor adormeça com os pássaros.