Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Apenas um lago

Leocádia Regalo

13/11/2020 03:04

Apenas um lago
de reflexos vagos
no silêncio da noite
grávida de secretas intuições.
A superfície límpida
fugidia persiste aquática
envolvendo o assombro da linguagem.

Apenas um lago
de contornos difusos
ondulações inconstantes
ao sabor da brisa episódica
de ventos incertos.

Concentro-me nele
reflectida na líquida lâmina.
Flutua a paisagem vegetal
cercada de palavras
à espera da revelação que
as liberte do sentido comum
da sua convivência quotidiana.

Sol pode ser fulgor.
Chuva, seara fértil.
Escapada, talvez azul.
Ou então nada disto.
Qualquer aliança entre as palavras
é mera coincidência em gestação.

No centro do lago
nada se reflecte.
As imagens que o habitam
permanecem nos limites
da sua curvatura fechada.

A brisa inesperada
deformou a figuração
do reflectido.
As palavras ficaram atordoadas.
Alegria fez-se alegoria.
Inacção tornou-se inanição.
Íntimo dissipou-se em ínfimo.
E sortilégio semeou florilégio.

É preciso esperar
que a brisa passe.
Esperar que a água turva do lago
volte à sua limpidez inicial.

Abeiro-me outra vez das águas
serenas estáticas.
Reconheço a imagem que tenho de mim.
À volta
a paisagem vegetal
parece mais brilhante.

As palavras reencontram-se apaziguadas.
Não sei nomeá-las.
A brisa levou-lhes o sentido
inscrito no corpo.
Ecoam agora
dentro de mim
voláteis
à espera do sopro de vida que
as restituirá ao espaço aberto
onde comunicam.

Apenas um lago.
De brilhos e reflexos.
E a transparência do fundo
a inscrever-se essencial
na metamorfose da imagem
com que me revelo.