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Anódina a cidade

Leocádia Regalo

25/02/2021 12:56

Nem a Lacrimosa de Verdi
nem o sol rubro no horizonte
suscitaram em mim o arrepio
do tempo dos olhares penetrantes
cruzados de surpresa e ténue frio.

Nas sombras da cidade não há margem
para vaguear os gestos indiferentes
ao bulício da hora vespertina.
Rostos difusos inconsequentes
povoam de solidão as ruas apinhadas
de expressões baças e sonâmbulas
sulcadas pelas marcas da rotina.

Em que país distante e mais a sul
estão as gentes tocadas pela graça
das horas brancas e diáfanas
que suspendem do chão a novidade?

Como recolher nestas esquinas
o sopro repentino de um sorriso
que neste entardecer de neblinas
rasgue o olhar vidrado nesse espanto
tornado especular de ansiedade?

Anódina a cidade.