Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Abate diário

Maria João Cantinho

21/03/2017 01:35

Abate diário

1.

porque só se pode sonhar
no lugar de um outro, escrevo
e ainda assim sucumbo
numa mudez sem saída
porque a língua não salva o olhar
nem a mão, nenhuma mão, pode tocar-te.

Percorres, de olhos no chão,
essa linha traçada pela promessa
pela qual trocaste todo o dinheiro
trazendo os filhos,
a quem, sorrindo, falaste
de um novo mundo
longe da guerra longe da fome

esperaste longos dias à deriva
enquanto a criança morria nos braços da mãe
e a terra se avistava ao longe

cantaste, baixinho, enquanto choravas
e vestias a mortalha do olhar
deus, esse deus, onde estava agora?
Nenhum canto nenhum salmo
o vento calou-se sob o mar

Mais tarde seria um outro
no lugar de um outro, sem fim,

a luz do mar é cruel, senhor
e a terra está cada vez mais próxima
mas os lábios secam, a fome devasta
as noites são frias frias
deus, esse deus, o deus dos outros, onde estava agora?

A terra está tão perto
os olhos cegaram-me
de tanto olhar a luz deste mar
a promessa fez-se noite
e canto, baixinho, um salmo
à espera que ele nos responda

deus, esse deus, abandonou-nos?

A terra estava tão perto. À distância de um sonho.

2.

Vieram do norte e ocuparam o seu lugar
estenderam uma manta negra
tão grande que tapou o sol
e o mundo mergulhou na sombra

o ar que as mulheres respiravam era fétido
e as crianças ficavam doentes
e de olhos vazios, com males estranhos
e os pássaros fugiram, não se sabe para onde
mesmo na Primavera não regressaram
porque a sombra não desaparecia
e a sombra estendia-se cada vez mais

agora não era só a terra, mas havia também o mar
que já nem era claro e transparente
e os peixes davam à costa, sem vida.

Os homens procuravam o esquecimento
nos braços das mulheres e nos bares
enquanto o velho pescador lhes falava
do mar antes da chegada da sombra.

Os homens cansavam-se das palavras do velho
esse louco preso ao passado
mas qualquer coisa os levava
todos os dias ao bar
a ouvir as histórias do velho

lá fora era o vento, sabiam,

o silvo do mal, essa sombra ininterrupta
que trazia doenças e escuridão.

Qualquer coisa os fazia acreditar
um fio longínquo que os trazia de volta
ao tempo dos nomes
ao tempo de um silêncio cheio
e sem medo.

Pode um homem sonhar, ainda,
enquanto as asas do mal o assaltam?