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A Mulher-Árvore

Maria João Cantinho

18/10/2014 21:32

A Mulher-Árvore


Havia séculos 

E, à medida que a manhã avançava, a chuva
crescia no ar, a mulher mudava e o vento
dançava, na perfeição das coisas o rosto
mudava, no beijo da luz, um mapa enrugado, o
olhar petrificado pelo tempo, o cabelo negro
ondulando na brisa.

A mulher cantava, voz de seiva, maldizendo a
teia de raízes que a prendiam ao solo, clamava
pela chuva, pelos pássaros que nela pousavam,
tranquilo, o sussurro do vento.

As manhãs avançavam por essa terra muito
antiga, as estações do ano sucediam-se como
páginas e ela mudava o rosto, Havia séculos e
ela envelhecia, atravessando a voz da terra
quente, era assim desde o início.

Intranquila era a epiderme das imagens e
nós mudávamos, sem cessar. Havia
séculos que, feridos pela mãe da beleza,
esperávamos, rasgando a incompletude,
no galope das palavras que se sucediam.

Havia muito tempo, escrita sobre escrita, nas
árvores, nas folhas e nos segredos da terra. 

“Sílabas de Água”