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a casa do vento

Isabel Mendes Ferreira

07/12/2020 16:09

a casa do vento falava a língua dos mortos e os gestos eram presos
como as alfarrobeiras amarradas à erva no des.sentido do sol
vegetalmente frio.
quando o mar te afogou eras um pequeno intermediário da fala sem
falas no livro platónico da culpa sem culpa e do bem sem mal e deste
sem sulcos alcancáveis. quando a terra te levou o limbo e a desordem
o mistério e as rosas o espinho e a espada o sal e a vil nódoa a
mancha e o traçado do jogo fétido do papel sacrificado eras apenas
um joelho em terra. a escrita e o sacrifício. o guerreiro sem país e a
delicadeza da mais completa solidão.
quando chegaste à casa do mar recebeu- te David em declive.
modestamente curvado. e ao lado uma mulher nua de rosas
vermelhas. o sangue de uma mãe a ser-te passagem. coberta de neve.
em narrativa humilde. porque é de gestos de leite que se fermenta a
viagem ao coração. é tensa e breve e nomeável a distância que
desarma e se discursa por dentro. impaciente o mar espera ser sete
mares. no tempo poderosamente irreal . neste tempo impiedoso de
ardências e de mortes cintilantes a voz latente é júbilo é jogo é logro é
judiciosa. é o implícito adeus de Rafael.__________ e a virtude
escorrente cerra os olhos ao ruído.
em gestos calados.
dancemos ou não entre feras metálicas feras aéreas veias efémeras
de imaculados corações de esconjuros e trevas são sumptuosos e
tristes os gestos crepitantes de gula e de milagres caídos. são cardos
e cetins e vários os deslizes sobre o livro do tempo tentacular. cenas e
cenários de sempre. sempre que a importância seja o miolo da
profilática agilidade de ficar entre os lobos. e dançar ao lado do fim. e
depois ser pó. só.