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A caixa

Adília César

25/08/2020 01:27

O poema é uma caixa de papelão.
Embrulho-me dentro da caixa e aí permaneço
como se a substância do poema fosse
a minha própria pele, as minhas unhas,
os meus cabelos. Os desperdícios que sobram.

Uma camada de inspiração desvia o ar que me envolve.
As palavras tentam escapar pelos poros da caixa que me veste
presa no magma da minha imaginação petrificada.

Quero começar a escrever este poema
mas há tanta morte em mim.
As palavras parecem vazias, descascadas.
Não consigo aprender a ler estas palavras
velhas e secas. Como se eu precisasse de morrer
de cada vez que escrevo um poema.

Cometi um erro de principiante.
Agora as palavras conseguiram escapar da caixa
organizaram-se em poema-objecto
com respiração própria e uma bandeira.
Para lá da fragilidade contida na matéria própria
da caixa de papelão. E eu presa dentro de mim
dentro da caixa
à espera de capturar um qualquer poema
no ar frágil que respiro.